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História da
Madeira
O príncipe que a História celebrizou como D. Henrique, o Navegador, foi o terceiro filho de D. João I a ser armado cavaleiro em Ceuta, mas veio a ser aquele que mais se salientou na história da futura expansão portuguesa. O Infante D. Henrique teve a antevisão que o levou a navegar ao longo da costa de África, mandando os seus navios para terras até aí desconhecidas, ou quase, dos marinheiros cristãos. Foi assim que os seus homens chegaram à Madeira em 1419, aos Açores em 1427, ultrapassaram o Cabo Bojador em 1434, chegaram a Cabo Verde em 1444 e antes da sua morte em 1460 tinham chegado já à Serra Leoa. Percorreram a longa costa atlântica de África e em 1487 tinham contornado o Cabo da Boa Esperança. Na década seguinte, fizeram história a descoberta da América por Colombo e o início da viagem de Vasco da Gama que levaria à descoberta da Índia. Em 1500, era a vez de Pedro Álvares Cabral chegar ao Brasil.
Ao longo de todo este percurso, o imaginário do homem europeu estava dominado por lendas que materializavam viagens reais ou imaginárias, perpetradas pela tradição oral ou reescritas por aventureiros. Acerca do Arquipélago da Madeira, poderíamos relembrar algumas dessas belas histórias que foram passando de geração em geração e chegaram até nós. Existem lendas sobre o Funchal, S. Vicente ou Ribeira Brava, sobre a tragédia do Cabo Girão ou a lenda da Madalena do Mar. Mas de todas elas, a Lenda do amor imortal vivido por Roberto Machim e Ana d`Arfet, é aquela que mais tem entusiasmado. Nesta lenda conta-se que, Roberto Machim viveu na corte britânica durante o reinado de Eduardo III. Foi aí que conheceu Ana d`Arfet, por quem se apaixonou e com quem pretendia casar. Os pais de Ana opuseram-se por já terem outro pretendente em vista para a filha. Assim, Roberto Machim toma a decisão de fugir com Ana para França. Mas, quis o destino que uma tempestade se abatesse sobre o barco que os levava, deixando-o à deriva. Andaram dez dias sem destino. Finalmente avistaram terra, numa ilha coberta de arvoredo que mais parecia o paraíso. Para lá se dirigiram, ancorando numa bela enseada. Desceram a terra e lá se instalaram, decidindo criar ali o seu novo mundo. Passados alguns dias, Ana d`Arfet sucumbiu a todos os sofrimentos por que tinha passado e morreu num fim de tarde. Na manhã seguinte à morte de Ana, uma caravela que por ali passava veio encontrar Roberto Machim que, chorando sobre a campa da sua amada, acabou por morrer de desgosto. Foi enterrado ao lado de Ana e sobre a campa de ambos ficou uma tosca cruz de madeira. Hoje em dia, diz-se que o nome de Machico, a bonita cidade da Ilha da Madeira, deriva do nome de Roberto Machim. Com certeza, muitas outras versões desta lenda e muitas outras lendas poderiam ser aqui relembradas, mas a par destas importa também referir os factos históricos que chegaram até nós.
As informações mais antigas relacionadas com ocupações de terras atlânticas pelos portugueses são referentes a expedições feitas no tempo do rei D. Afonso IV às Canárias. Estas ilhas, tal como a Madeira e possivelmente os Açores, eram vagamente conhecidas pelos europeus, uma vez que estão representadas em cartas anteriores às datas dos descobrimentos oficiais. Mas segundo Gaspar Frutuoso, o descobrimento da Ilha da Madeira teve lugar a 1 de Julho de 1419, desembarcando os portugueses na baía de Machico no dia seguinte, o dia da visitação de Santa Isabel. Após esta data, as viagens de reconhecimento que levariam à ocupação e ao povoamento da Ilha sucedem-se. João Gonçalves Zarco aporta à baía que se denominará Funchal, com instruções reais para a distribuição das terras insulares, na companhia de Bartolomeu Perestrelo e Tristão Vaz Teixeira, a quem se haviam destinado respectivamente Porto Santo e Machico. Enquanto o Porto Santo, hoje conhecido por Ilha Dourada, era entregue na totalidade a Bartolomeu Perestrelo, a Madeira foi separada em duas, por uma linha traçada em diagonal entre as Pontas da Oliveira e do Tristão. A parte dominada pelo Funchal ficou em poder de João Gonçalves Zarco, enquanto do outro lado da linha a posse era atribuída a Tristão Vaz Teixeira. Vieram para ficar, acompanhados da família, dos primeiros povoadores, da pequena nobreza, de gente de condição modesta, entre os quais alguns presos das cadeias do Reino. Segundo Ernesto Gonçalves, quando se consegue apurar a proveniência de um povoador, tanto do século XV como XVI, é regra geral de Entre Douro e Minho. O Povoamento organizado a partir de 1425, fez despertar o processo de valorização económica da Madeira, destacando a Ilha como o primeiro ensaio de processos, técnicas e produtos que serviram de base à afirmação dos portugueses no espaço atlântico. A partir daqui, tornou-se um ponto de apoio para as operações ao longo da costa africana, servindo de escala obrigatória às embarcações portuguesas.
Foram várias as experiências feitas para o aproveitamento do solo, desde logo virado para o cultivo de cereais, apesar de se fazer também o aproveitamento das madeiras e seus derivados, da urzela, pastel, produtos da pesca, etc.. Após as primeiras queimadas no início da colonização, a produtividade era grande, chegando mesmo a exceder em mais de dois terços as necessidades de consumo insular. Durante alguns anos dava mesmo para abastecer outras praças do norte de África, do espaço atlântico e era ainda enviado para o continente. Nesta altura, destacam-se as localidades de Machico e Funchal como principais focos de desenvolvimento económico, sendo atribuído a ambas a carta de foral em 1451. É precisamente a partir de meados do século XV, que o açúcar projecta a ilha da Madeira para um plano internacional, pois trata-se de um produto raro na Europa, que oferecia perspectivas de maiores lucros, classificado mesmo como especiaria e como tal pago a preços elevadíssimos. No entanto, a partir de meados do século seguinte, a indústria do açúcar foi sacudida por anos de forte recessão, determinada pela concorrência de novos centros de produção, pela baixa dos preços e sobretudo pela quebra da produtividade dos solos madeirenses. Com o declínio da produção açucareira, o florescente cultivo da vinha tomou o seu lugar, abrindo perspectivas à economia insular depois de um período de decadência e grande miséria nas últimas décadas do século XVI, e até mais de metade do século XVII. Assim, a partir de meados do século XVI, entrou-se no ciclo do vinho como cultura fortemente dominante até aos primeiros anos do século XIX.
Com o passar dos anos, o porto e a cidade do Funchal afirmaram-se como “cabeça” do Arquipélago, tornando a cidade como o centro da Ilha e levando a que tudo o mais fossem praticamente arredores. Desde os inícios do século XVI que o porto do Funchal mantinha contactos com outros portos europeus e africanos, principalmente por causa da sua importante produção açucareira, encontrando-se o seu açúcar registado a partir dos meados do século XV, desde os portos do mar Báltico aos do Mediterrâneo, com especial referência nos mercados da Flandres. Como ponto de passagem, quase obrigatório, das primeiras armadas dos descobrimentos e depois das rotas comerciais desenvolvidas, transferiram-se para a Ilha importantes interesses europeus e nela se fixaram aventureiros e comerciantes das mais recônditas origens, na procura de melhores condições de trabalho e de vida.
Com o final do século XVI e a crise dinástica que colocou Filipe II de Castela no trono de Portugal, o Funchal reformulou a sua posição no quadro atlântico, conseguindo-se manter como um importante entreposto comercial, beneficiando então do tráfico da prata do Novo Mundo no quadro do vasto império unido ibérico. Os séculos XVII e XVIII marcaram entretanto o aparecimento de uma nova e competitiva actividade económica na Madeira: a produção vinícola. Embora já com interesse económico ao longo do século XVI, veio a ser, a partir dos meados do século seguinte, a actividade dominante e catalizadora de uma vasta rede comercial e internacional.
Ao longo dos séculos XVII e XVIII, desempenharam um papel cada vez mais determinante os comerciantes e interesses ingleses, ao ponto de, nos inícios do XIX, a Ilha ser aproveitada como base de operações do exército inglês para a invasão do continente europeu. Aliando as motivações económicas às características especiais da Madeira, esta tornou-se ao longo dos tempos um lugar de exploração de quase monoculturas. Assim aconteceu com a exploração da cultura açucareira e assim aconteceu com a produção vinícola. Este facto, determinou que qualquer alteração internacional levasse a graves crises económicas e sociais, dependente que a Ilha estava do comércio marítimo internacional, sofrendo a população sérias carências alimentares. Muitos acabaram por ver na emigração uma forma de ultrapassar estas dificuldades
A emigração cresceu assim exponencialmente ao longo do século XIX e mesmo a tímida aposta no turismo terapêutico, não resolveu de modo algum a situação de crise económica e social ao longo de quase todo o século XIX e das primeiras décadas do século seguinte. O porto do Funchal era então escala, quase obrigatória, de grande parte das armadas inglesas das Índias Ocidentais, acabando a Ilha por entrar no amplo imaginário exótico europeu. O Funchal e a Madeira passaram assim a ser referência comum dos álbuns e livros de viagens do século XIX e por aqui passaram elementos das principais famílias europeias. Chegaram a fixar residência temporária nas quintas do Funchal, cujo clima se tornara famoso pelas suas qualidades terapêuticas, a rainha Adelaide de Inglaterra, a imperatriz Sissi da Áustria, a arquiduquesa Carlota do México, a imperatriz viúva do Brasil e a princesa Amélia, sua filha, que viria a falecer na então quinta das Angústias, hoje Quinta Vigia. Aos mares da Madeira aportaram diversas expedições científicas, ainda no século XVIII, como as do almirante James Cook e, no século XIX, o príncipe de Mónaco e o príncipe D. Luís, então herdeiro do trono de Portugal, para não citar outros titulares e cientistas. Já no século XX, o Funchal foi ainda exílio ou destino temporário de descanso de figuras notáveis, como o imperador Carlos de Áustria e família, o marechal Pilsudski da Polónia e, mais tarde, o primeiro ministro de Inglaterra, Sir Winston Churchill. A importância do porto do Funchal levou assim a várias intervenções e ampliações nos molhes de atracagem, desde os meados do século XVIII, tentando acompanhar, tanto quanto possível, a evolução dos transportes marítimos, mas nunca chegando aos mínimos que as necessidades requeriam.
Essas necessidades sentidas pela população foram sendo reivindicadas ao longo dos tempos, mas só em pleno século XX, durante a presidência de Fernão Ornelas na Câmara Municipal do Funchal, tiveram de facto resposta. Nesta data, tentando acompanhar o desenvolvimento de outras capitais europeias, foram pensadas um conjunto de transformações para a cidade do Funchal, integradas num vasto projecto de urbanização e modernização desta cidade. Partindo então de um estudo de 1915, da autoria de Ventura Terra que trabalhava nessa altura na reformulação do convento de São Bento, em Lisboa, para ali se instalar a Assembleia Nacional, que pretendia reformular toda a organização do Funchal, dá-se início a um conjunto de grandes transformações.
Essas transformações são bem visíveis na planta anexa a este texto, da autoria do arquitecto Faria da Costa, e que nos mostra claramente o arranjo que se quis dar ao espaço central desta cidade, hoje conhecido como Praça do Município. Os Paços do Concelho sofreram importantes modificações, tal como o Largo do Colégio ou o espaço onde funcionava até então o Liceu Jaime Moniz que cedeu a sua cerca para o arranjo da praça. Muitas outras obras se realizaram durante a presidência de Fernão Manuel de Ornelas Gonçalves na Comissão Administrativa da Câmara Municipal do Funchal. O alargamento de ruas e o seu respectivo calcetamento, como se pode verificar pelas imagens de Re-Nhau-Nhau em anexo, caricaturando o próprio presidente como galinha poedeira de paralelipipedos para calçar as ruas da cidade; o plano de saneamento e a complexa rede de esgotos; o abastecimento de água potável não só à cidade mas também às zonas suburbanas; a higienização das ribeiras; a construção de centros de saúde nas diversas freguesias; as escolas masculinas e femininas; os bairros sociais de casas económicas; a construção de um novo mercado municipal, hoje ainda um verdadeiro cartaz turístico em plenas funções; o novo matadouro; a construção de dois cemitérios que implicou a trasladação de muitos corpos para os novos espaços agora criados; a transformação do espaço que é hoje o Parque de Santa Catarina; a abertura de uma avenida marginal que ligasse a zona velha ao actual molhe; as obras de melhoramento no porto para receber condignamente as embarcações sobretudo dos turistas e muitas posturas sobre os mais variados aspectos que regulam a vida de qualquer cidadão.
Se ao tempo dos descobrimentos foi importante a acção do Infante D. Henrique, apenas na presidência de Fernão Ornelas se fez a homenagem ao Infante, como se pode ver nos dias que correm, ao fundo do Parque de Santa Catarina. Também é da sua acção governativa a colocação da estátua de Gonçalves Zarco numa rua central da cidade, em homenagem a esta figura ímpar da História da Madeira. As modificações são já muitas, mas de 1935 a 1946, o Funchal deixava para trás a ideia das antigas caravelas, para se preparar para os desafios do automóvel, com uma visão de futuro, em que o avião viria a conquistar o seu espaço.
As imagens de Re-nhau-Nhau, mostram bem a evolução sofrida pelo Funchal na época da governação camarária de Fernão Ornelas, desde o triciclo, passando pelo motociclo e pelo automóvel, para chegar ao avião.
O Funchal muito ficou a ganhar com a visão deste autarca, que soube conferir à sua cidade uma modernidade, que resistiu à passagem do tempo. O Funchal de hoje continua a acompanhar o desenvolvimento quotidiano dos seus cidadãos que olhando o mar, espreitam o futuro.
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