O vinho da Madeira foi, sem dúvida, o que mais se evidenciou das ilhas. O luzidío rubinéctar, que continua a encher os cálices de cristal, é, não só, a materialização da pujança económica do presente, mas também, o testemunho dum passado histórico de riquezas. Prende-o à ilha uma tradição de mais de cinco séculos. Nele reflectem-se as épocas de progresso e de crise. No esquecimento de todos fica, quase sempre, a parte amarga da labuta diária do colono no campo e adegas, o árduo trabalho das vindimas, o alarido dos borracheiros. Hoje, para recriar a ambiência, torna-se necessário olhar os restos materiais e ler os documentos, donde ainda é possível desbobinar o filme do quotidiano de luta, que se esconde por entre a ferrugem, a traça e o pó.
O Vinho Madeira, celebrado por poetas e apreciado por monarcas príncipes, militares, exploradores e expedicionários, perdeu paulatinamente nos últimos cem anos parte significativa do mercado fruto da conjuntura criada nos finais do séc. XVII e princípios do séc. XIX (…).
A presença da vinha da Madeira, associada aos primeiros colonos, é uma inevitabilidade do mundo cristão. O ritual religioso fez do pão e do vinho os elementos substanciais da prática e a tradição, fazendo deles símbolos da essência da vida humana e de Cristo. Ambos foram companheiros de expansão da Cristandade, sendo responsáveis pela revolução dos hábitos alimentares. A partir do séc. VII o comer pão e beber vinho simbolizava para o mundo cristão o sustento humano.
Em meados do século XV, com o arranque do processo de ocupação e de aproveitamento da ilha, é dada como certa a introdução de videiras do reino e, mais tarde, das célebres cepas do Mediterrâneo. João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrello, que receberam o domínio das capitanias do arquipélago sob a direcção do monarca e do Infante D. Henrique, procederam ao desbravamento e cultivo, plantando as primeiras culturas trazidas do reino, onde se incluíam as cepas.
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O Vinho Madeira adquiriu desde o princípio fama no mundo colonial, tornando-se na bebida preferida do militar e aventureiro na América ou
Ásia. Escolhido pela aristocracia manteve-se com lugar cativo no mercado londrino, europeu e colonial. Perante isto, o ilhéu, desde o último quartel do século XVI, fez mudar os canaviais por vinhedos ao mesmo tempo que conquistou novas terras à floresta a Sul e a Norte. O madeirense, embalado pela excessiva procura do vinho, esqueceu-se de assegurar a auto-subsistência. O vinho era a fonte de rendimento e a única moeda de troca para assegurar o alimento, indumentária e manufacturas. Daqui resultou uma troca desigual para o madeirense e muito rentável para o inglês.
No séc. XV o vinho competia com o trigo e açúcar assumindo uma posição de relevo na economia local, assumindo-se como um meio de troca no mercado externo. Os trigais e canaviais deram lugar às latadas, e balseiras e a vinha tornou-se na cultura quase exclusiva. Tudo isto projectou o vinho para o primeiro lugar na actividade económica da ilha, mantendo-se por mais de três séculos. O ilhéu apostou, desde o último quartel do séc. XVI, na cultura a vinha, tirando dela o necessário para o sustento e manter uma vida de luxo, construir sumptuosos palácios, igrejas e conventos. A Madeira viveu, entre o séc. XVII e princípios do séc. XIX, embalada pela opulência do comércio do vinho. O madeirense, com tão avultados proventos, deixou-se vencer pelo luxo, habitou-se à vida cortesã e copiou os hábitos ingleses.
A política exclusiva da cultura da vinha, imposta pelo mercantilismo inglês, mereceu a reprovação quer do Governador e Capitão General, José A. Sá Pereira, através de um «regimento de agricultura» para o Porto Santo, quer do Corregedor e Desembargador, António Rodrigues Veloso, nas instruções que deixou em 1782 na Câmara da Calheta. Mas foi tudo em vão, ninguém foi capaz de travar a «febre vitícola», nem de convencer o viticultor a diversificar as culturas da terra. Vivia-se um momento de grande procura do vinho no mercado internacional e as colheitas eram insuficientes para satisfazer a incessante procura. Perante tão desusada solicitação e à falta de melhor socorriam-se dos vinhos do Norte da ilha e mesmo dos Açores e Canárias para saciar o sedento colonialista.
A rota do comércio do vinho começou a ser traçada no século XV, partindo da Europa ao encontro do colonialista na Ásia ou América. O comerciante inglês, que surgiu a partir do séc. XVII, soube tirar o máximo partido do produto fazendo-o chegar em quantidades volumosas às mãos dos compatriotas que o aguardavam nos quatros cantos do mundo. Vários factores fizeram com que o inglês se instalasse na ilha e se afirmasse como o principal negociante do vinho. Para tanto contribuíram as condições favoráveis exaradas nos tratados luso-britânicos e o favorecimento que as regulamentações britânicas do comércio colonial atribuíram à Madeira. Do numeroso grupo de britânicos merecem referência: Richard Pickfort (1638/82), w. Bolton (1695/1714), James Leacock (1741), Francis Newton (1745), R. Blandy (1814).
As Canárias foram desde o princípio o competidor directo da Madeira no mercado do vinho europeu e colonial. A união peninsular não terá sido favorável ao vinho madeirense, uma vez que abriu as portas do mercado colonial ao vinho de Canárias. A conjuntura económica que se anunciou em 1640, abriu novas perspectivas para a Malvasia da Madeira, com o retorno a uma posição de privilégio do mundo português e britânico. A concorrência estava no vinho dos Açores, produzido nas ilhas Graciosa e do Pico.
Os pactos de amizade entre as coroas de Portugal e Inglaterra sedimentaram as relações comerciais favorecendo a oferta do vinho madeirense e açoriano nas colónias britânicas da América central e do Norte, como o determinavam as leis de navegação a partir de Carlos II, aprovadas em 1641. A situação de privilégio concedida ao vinho dos arquipélagos portugueses repercutiu-se negativamente na economia das Canárias, podendo ser considerada como um travão ao desenvolvimento da economia vitivinícola, a partir do séc. XVII (…).
O casamento de Carlos II de Inglaterra com D. Catarina de Bragança foi o prelúdio da conjuntura favorável ao vinho Madeira, sendo referido por Viera y Clavijo como um golpe tan feliz para la isla de la Madeiras como infausto para las Canárias.
A guerra de Cromwell contra Espanha levou ao encerramento do mercado londrino, no período de 1655 a 1660, ao vinho de Canárias e ao estabelecimento de medidas preferenciais para o das ilhas portuguesas (…).
Com o fim da guerra de fronteiras entre Portugal e Espanha e a assinatura das pazes em Madrid a 5 de Janeiro de 1668, ratificados a 13 de Fevereiro em Lisboa, restabeleceram-se os contactos entre os dois arquipélagos. O reforço das relações é testemunhado pela presença de Bento de Figueiredo no Funchal como cônsul castelhano. Mas não acabaram aqui as dificuldades pois apenas com as pazes de Ultechet de 1713 se abriram novas perspectivas e negócio, quando os vinhos madeirenses e açorianos haviam conquistado uma posição sólida no mercado colonial e britânico. O arquipélago das Canárias encontrava-se na posição de perdedor e a braços com uma crise económica por falta de escoamento do vinho.
O movimento de exportação do vinho da Madeira nos sécs. XVIII e XIX liga-se de modo directo com o traçado das rotas marítimas coloniais inglesas que tinham passagem obrigatória na ilha. São as rotas da Inglaterra colonial que faziam do Funchal o porto de refresco e de carga para o vinho no percurso para as Índias Ocidentais e Orientais, donde regressavam pela rota das Índias, ou do Brasil escalavam a ilha onde recebiam o vinho para as praças lusas. São ainda os navios ingleses que se dirigiam à Madeira com manufacturas e retornavam por Gibraltar, Lisboa, ou Porto. E, finalmente, os navios norte-americanos que traziam farinha para sustento diário do madeirense e regressavam carregados de vinho. Por tudo isto o vinho madeirense conquistou o mercado britânico em África, Ásia e América afirmando-se até meados do séc. XIX como a bebida dos funcionários e militares das colónias. Com o movimento independentista das colónias todos regressaram à terra de origem trazendo o vinho na bagagem.
O momento de apogeu na exportação do vinho Madeira situa-se entre finais do séc. XVIII e princípios do séc. XIX, altura em que a saída atingiu a média de 20.000 pipas. Mais de 2/3 do vinho exportado destinava-se ao mercado americano, com destaque para as Antilhas e as plantações do Sul da América do Norte e a área de Nova Iorque. A primeira metade do séc. XIX foi pautada pela alteração do mercado consumidor do vinho da Madeira. Foi o período da afirmação do novo destino capaz de suprir a perda do mercado colonial. A Inglaterra e a Rússia substituíram as colónias a partir de 1831. O fim das guerras europeias, em princípios do séc. XIX, abriu as comportas do vinho europeu os mercados asiáticos e americano. A saída do colonialista foi considerada uma perda irreparável para o vinho Madeira (…).
Os vinhos dos Açores e Canárias seguiram uma trajectória semelhante ao da Madeira. Foram os madeirenses que levaram as primeiras cepas para os Açores e Canárias. O das Canárias concorreu de forma directa com o da Madeira no mercado britânico já no séc. XV, a atestar pelas referências de Shakespeare. Para o dos Açores a competição começou apenas no séc. XVII. Mas a concorrência foi sempre entre a malvasia da Madeira e os caldos de Tenerife. Da disputa pelo mercado europeu passou-se depois ao colonial.
O século XVII foi o momento de viragem no mercado atlântico do vinho, conseguindo a Madeira levar a melhor na preferência do mercado norte-americano e colónias das Antilhas. O vinho Madeira tornou-se numa moda do quotidiano das colónias britânicas. Os viticultores e comerciantes de Tenerife para poderem sobreviver tiveram de se sujeitar ao fabrico de um vinho semelhante ao Madeira, ou à baldeação com o de Tenerife para depois venderem com o rótulo de Madeira. O século XVIII foi a época de plena afirmação do falso e verdadeiro Madeira.
A Vinha e o Vinho na História da Madeira
séculos XV a XX
Alberto Vieira
Região Autónoma da Madeira